GNU/Linux
OpenMandriva Cooker: o que existe por trás do desktop
O segundo sistema da minha bancada. Por que o OpenMandriva Cooker está no meu laptop, o que o Clang e o znver1 significam na prática, o que os testes da Phoronix mostraram e como conferir tudo isso no próprio sistema.
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neste texto
O Omarchy continua sendo o sistema onde trabalho todos os dias. No segundo SSD do laptop, porém, passou a morar outro sistema: o OpenMandriva Cooker, com KDE Plasma. Este texto explica o que ele é, por que me interessa e como conferir as escolhas técnicas dele sem acreditar em slogan, nem no meu.

Três canais, uma regra: não misturar
O OpenMandriva distribui o mesmo sistema em canais de atualização diferentes, e a documentação do projeto insiste num ponto: cada máquina usa um canal só. Misturar repositórios de canais diferentes é o caminho mais curto para conflito de pacotes.
- Rock é o canal estável, que aponta para a versão fixa mais recente.
- ROME é a edição rolling, pensada para uso individual, com os pacotes mais atualizados que o projeto considera prontos.
- Cooker é o ramo de desenvolvimento, onde os pacotes são feitos e testados antes de seguir para os outros canais.
O fluxo documentado é Cooker, depois ROME, depois a versão estável. Plano de lançamentos e repositórios · Página do ROME.
A página do Cooker não doura a pílula: ele é descrito como “um alvo móvel e instável”, e o projeto avisa que não oferece suporte a sistemas rodando nele. O plano de lançamentos é ainda mais direto: não se diz que o Cooker pode quebrar, diz-se que ele vai quebrar.Por isso o Cooker está num SSD separado, e não no sistema onde guardo trabalho do escritório. Para uso diário de quem não quer lidar com quebras, o próprio projeto indica o Rock ou o ROME. Cooker no wiki do projeto.
É exatamente por isso que ele me interessa. Para entender uma distribuição por dentro, o melhor lugar é onde os pacotes nascem: é no Cooker que uma atualização é testada antes de chegar a quem usa o ROME.
Clang: a distribuição construída com outro compilador
Quase todas as distribuições GNU/Linux compilam seus pacotes com o GCC. O OpenMandriva é uma das poucas que adota o LLVM/Clang como compilador padrão, tanto para construir os pacotes quanto como o compilador C e C++ oferecido a quem usa o sistema. O OpenMandriva Lx 3.0 foi apresentado como a primeira distribuição desktop construída inteiramente com Clang, e desde o Lx 5.0 o kernel padrão também é compilado com ele (as versões com GCC continuam disponíveis como alternativa). Phoronix sobre o Clang no OpenMandriva · OpenMandriva Lx na Wikipédia · Notas do Lx 5.0.
Compilador diferente não significa programa automaticamente mais rápido. O que muda é o código de máquina gerado, e o efeito depende do programa, das opções de compilação e da carga de trabalho. Dois termos aparecem sempre nessa conversa:
- LTO (link time optimization): otimizações feitas no momento em que as partes do programa são ligadas, olhando o conjunto. LTO no LLVM
- PGO (profile guided optimization): o programa é executado com uma carga típica e o perfil dessa execução orienta a compilação final. PGO no manual do Clang
znver1: pacotes compilados para processadores AMD Zen
Além das imagens x86_64 genéricas, o OpenMandriva publica uma variante chamada znver1, compilada para processadores da família AMD Zen (Ryzen, Threadripper e EPYC). O Cooker oferece os dois tipos de imagem na mesma página de download. Imagens do Cooker.
A ideia é deixar o compilador usar instruções que todo processador Zen tem, em vez de se limitar ao conjunto comum a qualquer PC de 64 bits.O nome vem da primeira geração Zen. Um Ryzen mais novo, como o Ryzen 7 5800H do meu laptop, executa esse código normalmente: as instruções usadas existem em toda a família.
A contrapartida é que esses pacotes só servem para essa família de processadores: quem usa Intel fica com a variante x86_64. É a variante que uso no meu laptop.
znver1 é uma variante de compilação da distribuição inteira, não o nome de um kernel. E vale o mesmo cuidado do Clang: o ganho, quando existe, aparece mais em programas limitados pela CPU do que, por exemplo, num jogo limitado pela placa de vídeo.
O que os testes já mostraram
A Phoronix, referência em benchmarks de Linux, já colocou o OpenMandriva e o Clang à prova. O resumo é menos empolgante que o marketing costuma prometer, e é justamente por isso que vale conhecer:
- 2019
OpenMandriva em último
OpenMandriva Lx 4.0: znver1 contra Ubuntu, openSUSE e Clear Linux
Na média geométrica, a versão znver1 ficou só um pouco à frente da genérica; Ubuntu e Clear Linux empataram no topo. Threadripper 2950X
ver os gráficos na Phoronix ↗ - 2020
praticamente empate
OpenMandriva Lx 4.1: x86_64 contra znver1 e kernel com Clang
Em 45 testes, o saldo foi quase neutro, com ganhos pontuais do znver1 em programas como a librsvg. Threadripper 3970X
ver os gráficos na Phoronix ↗ - 2025
disputa equilibrada
GCC 15 contra LLVM Clang 20
Com as mesmas opções de compilação, os dois compiladores ficaram lado a lado. EPYC 9575F, Zen 5
ver os gráficos na Phoronix ↗ - 2026
estável, sem regressões
LLVM Clang 22 contra 21 e 20
Sem grandes ganhos nem perdas; a Phoronix registra o Clang em linha com o GCC no x86_64. EPYC 9655P, Zen 5
ver os gráficos na Phoronix ↗
Os testes específicos do OpenMandriva são de versões antigas, de 2019 e 2020; não encontrei medição recente só dele. Os testes de 2025 e 2026 respondem outra pergunta, sobre o compilador: o Clang de hoje gera programas tão rápidos quanto os do GCC. Para quem quiser os gráficos completos, cada cartão leva à análise original.
Conferir no próprio sistema
Nada disso precisa ser aceito por confiança. Estes comandos apenas consultam informações e mostram, na sua instalação, qual canal está ativo, para qual arquitetura os pacotes foram compilados e com qual compilador o kernel foi construído:
| |
O /proc/version é o mais curioso: o próprio kernel informa com qual compilador foi construído, então dá para verificar a afirmação do projeto sem abrir nenhuma página.
Um detalhe que engana: o fastfetch do print no início mostra x86_64 mesmo numa instalação znver1. Ele lê a arquitetura do kernel (a mesma do uname -m), e o znver1 continua sendo x86_64 para o kernel. Quem revela a variante são os pacotes, pelo comando rpm acima.
O que estou fazendo por lá
Três frentes, que se misturam: testar, aprender e contribuir.
- Testar software no OpenMandriva. Foi nele que validei a correção do bigocrpdf que resolveu páginas com preto e branco invertidos na compactação CCITT; ela foi incorporada pelo BigLinux em 11/09/2026.
- Cooker Pulse, um widget do Plasma 6 feito dentro do próprio Cooker, que mostra a atividade do sistema numa órbita inspirada no símbolo do OpenMandriva. Ainda é protótipo.
- Empacotar e contribuir com a distribuição, que é onde o Cooker faz mais sentido: os pacotes nascem e são testados ali antes de chegar a quem usa o ROME.
O registro dessas frentes fica na Bancada, junto com o Omarchy.
O visual também conta




Um sistema bonito não é argumento técnico, mas faz parte do motivo pelo qual a gente passa horas nele. O OpenMandriva tem uma identidade visual própria, feita de flores sobre fundo escuro, e os meus wallpapers conversam com ela. Clique em qualquer imagem para ver inteira. A proposta deste Lab continua a mesma: gostar da ferramenta, entender por que ela é como é e medir antes de prometer.
Aparato
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